Vale a dor do mundo"
Adélia Prado
Onde a dor da minha alma vai,
Certa ou possivelmente vai,
Me levar?
A que ou a quem vou recorrer
Na tentativa de aliviar?
Qual é o prazer que eu busco
Na intenção de aplacar?
Qual é o produto que me faz crer,
Logo, logo ao usar,
Que essa, esta e aquela impacientações,
Inquietações, angústias
- sim, angústias de muitos nomes -
Vão passar?
Seria a geografia do andarilho
A prova de sua alma desligada,
Sem religião?
Por quais lugares, caminhos, aventuro
Na crença de que lá,
Ela não vá chegar?
Sim, como se houvesse um lá,
Ou um novo lar...
Inchegável a ela.
Quero saber a pergunta que eu não faço.
Quero ver a resposta que eu não tenho.
É uma dor de origem desconhecida
Capaz de anestesiar meu bom senso?
É uma ferida aberta,
Como o vazio,
Que me ofusca os sentidos e o raciocinamento?
Ou, crua e simplesmente, é a dor que sinto,
Em forma de tristeza,
Pelos pecados em que me quedo?
Uma é causa, outra é consequência?
Uma é uma e outra é outra?
Afinal, que solução darei
Ao labirinto dos meus sentimentos?
Quem enxerga do Alto
Vê o labirinto sob outra perspectiva.
Os perdidos, aos próprios olhos,
Seguem indignos, todavia são alvos
De uma sangrenta simpatia.
Há uma voz que comunica
Às misérias que tenho na vida
Que existe algo suficiente,
Maior que a morte,
E que alivia!
Que enxuga as lágrimas,
Que firma os pés do andarilho,
Tornando-o peregrino,
E que faz da sua aventura
A jornada das jornadas
Que é eterna.
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