Cada vez mais se pensa sobre ferramentas, metodologias e recursos capazes de melhorar o processo de ensino-aprendizagem. A escola procura novas formas de dialogar com crianças, adolescentes, jovens e adultos, sobretudo em uma sociedade profundamente atravessada pelas tecnologias digitais. Nesse cenário, gostaria de destacar uma prática bastante presente no universo juvenil: a trolagem.
A princípio, pode parecer estranho aproximar trolagem e educação. Afinal, estamos falando de uma prática frequentemente associada à provocação, ao deboche, ao engano e, em situações mais graves, à humilhação. Entretanto, justamente por fazer parte do cotidiano de muitos adolescentes, talvez seja necessário perguntar: a trolagem nas escolas deve ser entendida apenas como desobediência estudantil ou pode, mediante intencionalidade e mediação adequadas, transformar-se também em objeto e ferramenta pedagógica?
Não proponho naturalizar ofensas,
muito menos transformar bullying em brincadeira aceitável. A questão é outra.
Se determinada linguagem já circula entre os estudantes, talvez a escola possa
compreendê-la, problematizá-la e, em determinadas circunstâncias,
ressignificá-la pedagogicamente.
Entre
a provocação e a brincadeira
Trolagem, ou trollagem, pode ser
compreendida como o ato intencional de provocar, irritar, enganar ou zombar de
alguém com o propósito de obter determinada reação. No ambiente digital, o
termo ganhou força para caracterizar mensagens provocativas, falsas, irônicas
ou ofensivas publicadas justamente para desencadear respostas emocionais.
Esse aspecto merece atenção: a
trolagem trabalha essencialmente com a reação do outro.
Quem trola lança uma provocação e
espera uma resposta. Por isso, não podemos afirmar que toda trolagem seja
inofensiva. Dependendo da situação, da pessoa envolvida, da exposição produzida
e principalmente da repercussão nas redes sociais, aquilo que para um estudante
parece apenas engraçado pode provocar constrangimento, sofrimento psicológico,
exposição pública e até configurar bullying ou cyberbullying.
Na escola, essa dimensão torna-se
ainda mais delicada. Professores conhecem há décadas pequenas brincadeiras
coletivas criadas para provocar colegas ou até o próprio docente. Muito antes
dos smartphones e das redes sociais, já existiam expressões, gestos e
brincadeiras que interrompiam uma aula e provocavam risadas coletivas. Mudaram
as formas, mas não desapareceu o desejo juvenil de provocar, testar limites e
conquistar a atenção do grupo.
A grande diferença contemporânea
talvez esteja na escala da exposição. Antes, uma brincadeira poderia começar e
terminar dentro da sala de aula. Hoje, um celular transforma aquele
acontecimento em vídeo e, em poucos minutos, o episódio pode ultrapassar os
muros da escola. A plateia deixou de ser apenas a turma.
Isso exige do professor não somente
autoridade pedagógica, mas inteligência emocional, capacidade de mediação e
compreensão da cultura digital na qual seus estudantes estão inseridos.
Das
antigas pegadinhas à cultura digital
Podemos compreender parte da
trolagem contemporânea como uma atualização das antigas pegadinhas. O Brasil
das décadas passadas acompanhou programas de televisão baseados em situações
inesperadas, câmeras escondidas, brincadeiras e nas famosas “videocassetadas”.
Antes de falarmos em memes, viralização ou redes sociais, já existia uma
cultura do humor baseada na surpresa e na reação espontânea das pessoas.
O que mudou foi o ecossistema
comunicacional.
Hoje, adolescentes não são apenas
consumidores dessas produções. Eles também são produtores de conteúdo. Com um
celular nas mãos, aplicativos gratuitos e conhecimentos básicos de edição,
qualquer estudante pode produzir, editar e publicar vídeos para uma audiência
potencialmente enorme.
Estamos diante de uma
característica importante da chamada cultura participativa digital: o jovem
deixou de ocupar exclusivamente a posição de espectador. Ele grava, interpreta,
edita, publica, comenta, compartilha e busca repercussão.
E é justamente nesse ponto que vejo
uma possibilidade para a escola.
Em vez de simplesmente perguntar
como impedir que os estudantes produzam determinadas formas de conteúdo,
podemos também perguntar: como educá-los para produzir?
Quem
é o “troll” da sala de aula?
A própria origem da palavra oferece
uma imagem interessante. “Troll” remete às criaturas do folclore nórdico, mas o
termo também foi associado à ideia de lançar ou arrastar uma isca esperando que
alguma coisa “morda”. No ambiente digital, a metáfora é bastante apropriada: o
troll lança a isca da provocação e aguarda a reação.
Talvez existam, metaforicamente,
pequenos “trolls” em nossas salas de aula: estudantes comunicativos, inquietos,
criativos, capazes de mobilizar rapidamente os colegas e provocar reações. O
problema não está necessariamente nessa capacidade de comunicação. Está na
maneira como ela é utilizada.
Um adolescente capaz de fazer uma
turma inteira prestar atenção em uma brincadeira possui, afinal, alguma
capacidade de mobilização. Quem consegue imaginar uma situação engraçada,
organizar colegas, gravar, interpretar e editar um vídeo também está mobilizando
competências comunicativas, criativas e tecnológicas.
Por
que não canalizar parte dessa energia?
Evidentemente, há limites que não
podem ser relativizados. O prazer de ridicularizar alguém, transformar
sofrimento em entretenimento ou conquistar audiência mediante humilhação
precisa ser enfrentado pedagogicamente. Não se trata de romantizar comportamentos
ofensivos. Pelo contrário: trazer essas práticas para o campo da reflexão
escolar pode ser justamente uma maneira de discutir empatia, consentimento,
responsabilidade, privacidade, ética digital e consequências da exposição
pública.
Em outras palavras, talvez seja
possível ensinar ao estudante que produzir humor é diferente de produzir
humilhação.
Da
trolagem à autoria estudantil
Imagine uma escola que organize
pequenos núcleos de produção audiovisual ou células de cinema, nas quais os
estudantes possam criar micronarrativas, roteiros, vídeos curtos, esquetes e
situações humorísticas relacionadas aos conteúdos estudados.
Nesse contexto, a linguagem da
trolagem poderia ser ressignificada.
Um professor de Ciências poderia
propor uma situação humorística construída em torno de um erro científico que
os estudantes precisariam identificar. Em Matemática, uma pegadinha poderia
explorar um raciocínio aparentemente correto que conduz a uma conclusão
absurda. Em Língua Portuguesa, seria possível trabalhar ambiguidade, ironia,
argumentação, fake news e interpretação. História e Geografia poderiam
explorar anacronismos, informações falsas e conflitos de perspectiva.
A brincadeira, portanto, deixaria
de ter como finalidade simplesmente ridicularizar alguém. A “isca” passaria a
ser cognitiva: provocar curiosidade, dúvida, investigação e aprendizagem.
Essa abordagem aproxima-se da
aprendizagem baseada em projetos e das metodologias que valorizam protagonismo
e autoria estudantil. Para produzir um vídeo curto, por exemplo, os estudantes
precisam pesquisar, selecionar informações, escrever um roteiro, definir
personagens, organizar uma sequência narrativa, gravar, editar, revisar e
avaliar o resultado.
Aquilo que aparentemente seria
apenas uma brincadeira passa a mobilizar diferentes competências.
Um
laboratório para discutir ética digital
Talvez o maior potencial pedagógico
esteja justamente nos limites.
Antes de produzir qualquer
conteúdo, a turma poderia discutir: até onde uma brincadeira pode ir? Uma
pessoa pode ser filmada sem saber? Existe diferença entre rir com alguém e rir
de alguém? O que acontece quando um vídeo deixa a sala de aula e chega às redes
sociais? Quem é responsável pela publicação? O consentimento dado para
participar de uma atividade escolar significa autorização para publicação
pública?
Essas perguntas transformariam o
projeto em verdadeiro exercício de letramento e cidadania digital.
Também seria possível trabalhar
competências socioemocionais, como empatia, autocontrole, responsabilidade,
cooperação e capacidade de perceber os efeitos das próprias ações sobre outras
pessoas.
Um projeto dessa natureza não
precisaria ficar sob responsabilidade isolada de um professor. Pelo contrário,
poderia envolver diferentes áreas do conhecimento, coordenação pedagógica e,
quando necessário, profissionais capazes de contribuir com questões relacionadas
à tecnologia, comunicação, emoções e convivência escolar.
A própria construção das regras
poderia fazer parte da aprendizagem. Os estudantes poderiam elaborar
coletivamente princípios para uma “trolagem pedagógica”: ninguém pode ser
humilhado; ninguém deve ser exposto sem consentimento; características físicas,
sociais ou pessoais não podem servir de instrumento de ridicularização;
conteúdos não devem ser publicados externamente sem autorização; e toda
produção precisa possuir uma finalidade educativa previamente definida.
Nesse momento, algo interessante
acontece: o estudante deixa de discutir apenas como produzir um vídeo engraçado
e passa a refletir sobre a responsabilidade envolvida naquilo que produz.
Proibir
ou ressignificar?
Não pretendo apresentar aqui uma
metodologia pronta, tampouco afirmar que professores devam simplesmente
permitir trolagens dentro das escolas. Minha intenção é provocar uma reflexão.
Quando uma manifestação cultural
dos jovens entra na escola, temos pelo menos duas possibilidades. Podemos
tratá-la exclusivamente como ruído e tentar eliminá-la ou podemos compreender
sua linguagem, estabelecer limites e investigar se existe nela alguma
possibilidade educativa.
Isso não significa que toda prática
juvenil precise ser incorporada ao currículo. Há comportamentos que exigem
intervenção firme. Bullying, cyberbullying, humilhação, violência e exposição
indevida não podem receber uma roupagem pedagógica apenas porque foram
apresentados como “brincadeira”.
Mas existe uma diferença importante
entre legitimar uma prática prejudicial e apropriar-se criticamente de sua
linguagem.
Talvez seja justamente essa segunda
possibilidade que mereça maior atenção.
A escola contemporânea convive com
estudantes que carregam câmeras, ilhas de edição, bibliotecas, redes de
comunicação e plataformas de publicação dentro do próprio bolso. Proibir
completamente esse universo pode significar desperdiçar oportunidades educativas.
Aceitá-lo sem critérios seria igualmente irresponsável.
O caminho mais interessante talvez
esteja na mediação pedagógica.
Se nossos estudantes já criam
vídeos, memes, pegadinhas e pequenas narrativas digitais, a escola pode
ajudá-los a transformar espontaneidade em autoria, audiência em
responsabilidade, provocação em reflexão e tecnologia em conhecimento.
Talvez a pergunta, portanto, não
seja simplesmente se devemos permitir ou proibir a trolagem nas escolas.
A pergunta mais produtiva pode ser
outra: o que a escola consegue ensinar quando decide compreender aquilo que
seus estudantes já estão tentando comunicar?
Referências para consulta
PRIBERAM. Trolagem. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Disponível em: dicionario.priberam.org/trolagem.
DICIO. Trollar. Dicionário Online de Português. Disponível em: dicio.com.br/trollar.
TECHTUDO. O que são trolls e o que é trollagem? Disponível em: techtudo.com.br.
WIKIPEDIA.
Trolling. Verbete consultado em versão traduzida para o português.
