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sábado, 21 de março de 2026

Dor e oxigênio

Eu mergulho na minha dor

Como quem não tem rumo.

 

Maximizo. Centralizo. Focalizo.

 

Isso não é bom!

 

Asfixio...

Perco a oxigenação do cérebro

Por onde as ideias passam.

Passam só as insolúveis: medo, culpa, impotência

E autocomiseração.

 

Outros órgãos são afetados

Bem como suas capacidades.

Não enxergo mais nada que não seja por ela.

Vou endoendo todos cenários da minha vida.

Perdido, desesperançado à medida que não vejo

Solução para ela.

Sinto dificuldades em tocar a exata natureza das coisas.

Desconfio do que me chega ao tato

Ou simplesmente não sei mais o que fazer

Com nada daquilo que está posto materialmente no mundo.

Questiono: “A metafísica da dor anestesiou todos os meus sensos?”

Ou: “É necessário passar por esse sequestro que a dor me causa?”

 

A dor avança.

Disso não há dúvidas.

Avança porque diante de mim noto a dor escalando para vidas alheias.

Pessoas do meu peito agora são pessoas da minha violência.

Avança porque, do fundo ou do alto dela, sinto que começa a agir involuntariamente.

Ela está ali, saindo pelos meus poros.

Estou suando e fendendo a nauseabunda força que nos humaniza mais que a morte.

Afinal, passamos mais tempo doendo que morrendo.

O tempo é a prova de que uma e outra coisa não são a mesma coisa.

Conscientizo-me de todas quantas puder,

Todas quantas posso, dores que estão soterradas no meu ser.

Vocês não morarão por muito tempo nesse oculto.

Eu sei que eu era cego, mas agora vejo.

 

Um dos sentidos começa a ficar sóbrio,

Depois de tanto tempo enebriado pelos óculos dos meus sofrimentos.

 

Porém, é difícil ter olhos que vejam do lado de dentro.

Vou orando nessa escuridão.

Nessa vastidão, a pouca luz que vem do alto contrasta com

A luz de mim.

Estou tendo medidas das trevas.

Já consigo medir com os palmos das mãos a natureza dos meus atos ferazes.

Torna-se possível desviar os males que a dor deu forma,

Muitas formas, na verdade.

Formas atingíveis,

Que quase conseguiram arrancar os que são do meu peito.

Inclusive, as formas que quase me desenraizaram dos bons sentimentos de quem me ama.

Teu curso, dor.

Ainda respiro...

Saindo dessa travessia.

 

 

 

 

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