A infância não virtual seria a
solução?
Os últimos acontecimentos têm
levado a sociedade a refletir acerca da direção que jovens e adolescentes estão
tomando. Cenas de violência, produzidas e disseminadas gratuitamente pela
internet, são acompanhadas por milhares e milhares de olhos famintos por
consumir conteúdos cruéis. Isso nos faz recordar as reflexões de Hannah Arendt
acerca da “banalidade do mal”: quando o mal deixa de causar espanto, corre-se o
risco de que ele seja incorporado à normalidade.
Mas o que tem acontecido? É a
família que tem falhado? É a escola que não tem exercido seu papel? É a própria
vizinhança? Ou seria uma sociedade que se desconectou de tal maneira da vida
dos jovens e adolescentes a ponto de não lhes oferecer referenciais nobres?
Sabemos que Aristóteles, ao tratar
da mímesis na Poética, observa que a imitação é natural ao ser humano desde a
infância e que, por meio dela, realizamos nossas primeiras aprendizagens. Essa
compreensão ultrapassa, inclusive, os limites da tradição filosófica grega. Há
também referências bíblicas à importância do exemplo. O apóstolo Paulo, em
diferentes momentos de suas cartas, apresenta Cristo como referência e chega a
apontar a própria conduta como exemplo a ser seguido.
Esses elementos nos levam a uma
pergunta incômoda: o que tem acontecido com uma juventude que, em determinados
espaços virtuais, torna-se fascinada por conteúdos grotescos e violentos?
É evidente que o grotesco não
constitui uma novidade na história da arte. No teatro, por exemplo, recursos
grotescos podem ser empregados justamente para provocar, incomodar e confrontar
o público. Nesse contexto, o choque possui uma função estética e crítica: a
arte perturba o espectador para levá-lo a enxergar determinada realidade.
O fenômeno observado em certos
ambientes da internet, contudo, parece bastante diferente. Quem produz e
dissemina conteúdos violentos nesses espaços nem sempre pretende utilizar a
crueldade como instrumento artístico de denúncia ou como forma de confrontar
moralmente o público. Muitas vezes, a própria violência transforma-se no
produto, e o choque, em mercadoria de consumo.
Isso precisa nos incomodar.
Diante desse cenário, uma das
primeiras respostas do poder público costuma ser a censura ou a retirada de
plataformas e comunidades virtuais do ar. Evidentemente, crimes devem ser
investigados, e aqueles que os praticam precisam responder na forma da lei.
Entretanto, imaginar que o problema se resolve simplesmente derrubando uma
plataforma, como o Discord, seria confundir o sintoma com a doença.
Seria quase como acreditar que a
eliminação daquele que praticou um crime elimina também as causas que
produziram o crime. Não elimina. Da mesma maneira, silenciar um espaço virtual
pode interromper determinadas práticas, mas não necessariamente responde à
pergunta mais importante: por que crianças e adolescentes chegaram ao ponto de
desejar produzir, compartilhar ou consumir determinados conteúdos?
O problema é muito mais profundo do
que uma simples censura virtual.
Todo esse cenário deveria nos fazer
refletir sobre aquilo que poderíamos chamar de infância não virtual. Será que
aquela alegria própria dos primeiros anos da vida, marcada pela brincadeira,
pela convivência, pela descoberta e por certa despreocupação diante do mundo
adulto, continua encontrando espaço na vida das crianças?
Há uma imagem profundamente triste
na ideia de uma infância que deveria florescer, mas começa a murchar antes do
tempo. A face das crianças se assemelha ao poema Flores Murchas:
Pálidas
crianças
Mal
desabrochadas
Na manhã da
vida!
Tristes
asiladas
Que pendeis
cansadas
Como flores
murchas!
Isso nos faz questionar o que Manuel
Bandeira teria visto na feição dos pequenos a ponto de fazê-lo criar um poema,
publicado em 1936? Acredito que o poeta modernista via o mesmo que vemos hoje. Crianças
que deveriam brincar, sorrir, descobrir o mundo e experimentar uma felicidade
mais espontânea passam cada vez mais cedo a conviver com preocupações,
angústias e conteúdos que pertencem a um universo para o qual ainda não estão
preparadas.
Por isso, precisamos perguntar: o
que tem acontecido com aqueles que buscam saciar suas almas no ambiente
virtual?
Talvez seja necessário voltar
nossos olhos para a infância de maneira mais responsável. E isso implica
atitudes que, diante da velocidade e do fascínio das telas, podem parecer
simples, chatas ou até enfadonhas. É o papel cotidiano do pai e da mãe que reservam
um momento para brincar com os filhos e decidem não abrir mão desse tempo. É a
escola que compreende que seu espaço educativo também pode ser utilizado para
falar de valores, convivência, respeito, responsabilidade e tradição.
A própria ideia de tradição, muitas
vezes, é recebida com desconfiança. Em certos ambientes acadêmicos, chega-se ao
extremo de tratar praticamente todo valor herdado como manifestação de
opressão. Quando essa lógica é levada de maneira radical para a sala de aula,
até princípios elementares, como respeitar pai e mãe, podem ser submetidos a
interpretações nas quais toda relação é reduzida à oposição entre opressor e
oprimido. Deturpam tudo com ideologia barata a ponto de associar o princípio de
honrar pai e mãe como se isso fosse o útero de capitalismo malvadão.
Falta, nesses casos, algo
igualmente importante para a educação: bom senso e senso de proporção.
Existem práticas simples que
funcionaram no cuidado das crianças no passado e que continuam fazendo sentido
hoje. O ser humano troca de roupa, mas não muda de pele. As tecnologias mudam,
os costumes se transformam, as cidades crescem e as telas se multiplicam, mas
determinadas necessidades humanas permanecem.
A criança continua precisando de
presença. Continua precisando de exemplo. Continua precisando de limites.
Continua precisando brincar, conversar, conviver, errar e aprender em um mundo
que não seja inteiramente mediado por uma tela.
Talvez, portanto, antes de
perguntarmos apenas como controlar aquilo que crianças e adolescentes fazem no
mundo virtual, devamos recuperar aquilo que estamos deixando de lhes oferecer
no mundo real.
E que deixamos de oferecer? Voltemos
ao poema de Manuel Bandeira: “Pálidas meninas / Sem amor de mãe, / Pálidas
meninas / Uniformizadas, / Quem vos arrancara / Dessas vestes tristes / Onde a
caridade / Vos amortalhou! / Pálidas meninas / Sem olhar de pai, / Ai
quem vos dissera, / Ai quem vos gritara: / — Anjos, debandai! / Mas ninguém vos
diz / Nem ninguém vos dá / Mais que o olhar de pena (...).”. No fundo, a
presença amorosa de pai e mãe continua sendo a melhor nutrição para a alma dos
menores.
No tempo de Bandeira, claro, ele se
referia a crianças em certos orfanatos, abandonadas, que recebiam olhar de
pena. Hoje, abandonamo-las no vazio do desafeto virtual. Picos de hormônios intermediados
por máquinas não substituem o natural afeto humano.
Voltemos às crianças da maneira
mais simples e, ao mesmo tempo, mais exigente possível: amando-as, educando-as
e cuidando delas.
Essa é a Realidade.
ResponderExcluirCriança tem que ser criança .
❤️👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻
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